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Abstract:
Article published in Expresso, a very influential newspaper in Portugal. A positive article towards the Faith.
Notes:
Nascida no Irão quando este ainda se chamava Pérsia, em 1844, a fé bahá’i foi desde o início sujeita a perseguições. Discriminada pelo regime do Xá Reza Pahlevi, e já antes de seu pai, não teve melhor sorte com o regressado «ayatollah» Khomeini. See also povodebaha.blogspot.com/2006/03/ltima-heterodoxia.html (comments to minor incorrections).
Written in Portuguese.

A Última Heterodoxia

by Ana Cristina Leonardo

Lisbon: Expresso, 2006-03-11
Nascida no Irão quando este ainda se chamava Pérsia, em 1844, a fé bahá’i foi desde o início sujeita a perseguições. Discriminada pelo regime do Xá Reza Pahlevi, e já antes de seu pai, não teve melhor sorte com o regressado «ayatollah» Khomeini. Chegou a Portugal em 1926. Texto de Ana Cristina Leonardo.

John Birks Gillespie(1917-1993), que ficou para a história do jazz como Dizzy Gillespie, tornou-se bahá’i na década de 70, pouco tempo após o assassínio de Martin Luther King, em 1968. Os princípios professados pelos seguidores de Bahá'u'lláh pareceram ao trompetista, na altura em valente crise de alcoolismo, estar significativamente de acordo com a sua visão do mundo. Assim como ele mostrava convicto de que «chegam profetas à música e depois da sua influência se impor vem outro com um nova ideia, conseguindo muitos seguidores, também a fé bahá’i apontava para a unidade essencial entre profetas e religiões: «Cremos queDeus é uno, tem apenas uma religião, a qual nos é revelada progressivamente». E por isso preferem falar em fé.

Ao trazer o evolucionismo para o interior das religiões reveladas, os bahá’is ensaiam um sincretismo que se traduz na aceitação daquilo a que chamam «os manifestantes de Deus» (professores de inspiração divina cujo ensinamento depende do nível em que os alunos se encontram), de Krishna a Buda, de Abraão a Zoroastro, de Moisés a Jesus Cristo ou Maomé. O Báb (1819-1850), em português "A Porta", e Bahá'u'lláh (1817-1892) , «A Glória de Deus», são aqueles que lhe são próprios.

Se o habitual é cada religião ter os seus mártires, Báb (de nome Siyi Ali-Muhammad) e Bahá'u'lláh (Mirzá Husayn Ali) estarão para os bahá’is como João Baptista e Jesus, respectivamente, estão para o cristianismo (descontada a pretensão de Jesus à divindade). À imagem do profeta que autenticou o filho de Maria e José como o Messias, também o Báb sofreu um final trágico. Aos 31 anos é fuzilado a instâncias dos «mullahs», indignados com a sua insistência na chegada iminente do Mensageiro de Deus. 13 anos depois, Bahá'u'lláh, seu acólito, proclama ser o prometido pelo Báb e demais religiões. Também nascido na Pérsia, oriundo de uma destacada família nobre, suportara uma série de prisões e exílios, primeiro para Bagdade, depois para Constantinopla, Adrianópolis e, finalmente, para Akka (hoje em Israel), tendo falecido numa povoação próxima, Bahji. Aí se ergue o seu sepulcro, que conjuntamente com o Centro Mundial Bahá'i, em Haifa, são lugares de peregrinação obrigatória.

Desde a sua fundação que a fé bahá'i tem estado na mira das autoridades persas. Ainda no século XIX, calcula-se que cerca de 20 mil aderentes tenham sido mortos em diversos massacres. Em 1903 regista-se a chacina de uma centena na cidade de Yazd. A perseguição continuou até hoje. Ao testemunhar a possibilidade de profetas posteriores a Maomé torna-se uma heresia no mundo islâmico. Residirá aí a razão teológica subjacente à caça feroz a que vem sendo sujeita, em particular no Irão.

Durante a dinastia Pahlevi, que dirigiu o país entre 1925 e 1979, foram promulgadas uma série de leis discriminatórias. Em 1933 (dois anos antes de a Pérsia ter adoptado oficialmente o nome de Irão), a literatura bahá'i será proibida, os casamentos deixam de ser reconhecidos, os funcionários de Estado demitidos e as escolas encerradas. Uma nova onda de violência surge em 1955 quando, fruto de uma aliança oportunista entre o Xá e o Xeique Taqi Falsafi, os bahá'is são caluniados na rádio e a cúpula da sua sede nacional demolida à picareta pelas forças do exército dirigidas pelo general Batmangelich. Com todas as actividades proibidas, vivem um período de terror que não fará mais que prolongar-se com a queda do Xá e a promulgação da República Islâmica em 1979.

Um mês antes de Khomeini subir ao poder, a Casa do Báb, o santuário mais sagrado do país, é entregue a um «mullah» conhecido pelo seu fanatismo anti-bahá'i; em Setembro seria completamente destruída por uma multidão em cólera. Em Agosto do ano seguinte, o governo de Khomeini decide decapitar a liderança da comunidade. Os nove membros da Assembleia Nacional são dados como desaparecidos, um eufemismo a que as ditaduras recorrem ad nauseum. Três anos depois, a 18/6/1983, em Shiraz, terá lugar um dos acontecimentos mais chocantes: 10 mulheres bahá’i, entre os 17 e os 57 anos, são enforcadas uma à uma, obrigadas a assistir por ordem decrescente das idades, à agonia das congéneres. O crime? Ensinar a sua fé em aulas dirigidas a crianças.

Calcula-se que entre 1979 e 1998 tenham sido executados cerca de 200 bahá’is no Irão e sujeitos à tortura milhares deles. Mas a fúria persecutória não tem de chegar à morte para se mostrar eficaz. Depois de ter despedido sem indemnização todos os funcionários públicos bahá’i, o Estado adita em 1984 que estes teriam de devolver os salários pagos pelo governo. As actividades profissionais privadas também são vivamente combatidas. Durante o ano de 2003 foram muitos os empresários que viram, em tribunal, serem-lhe recusados alvarás ou licenças de actividade. Em 2004 e 2005 as prisões arbitrárias multiplicaram-se, assim como a confiscação de bens, incluindo as casas para habitação.

O Conselho da União Europeia, no «Relatório Anual sobre os Direitos Humanos» (2004), chamou a atenção para o tema, afirmando continuar «preocupado com as constantes violações dos direitos humanos (no Irão), que incluem detenções arbitrárias, desaparecimentos na sequência de detenção, tortura e amputações, discriminação contra minorias religiosas, incluindo os bahá’is(...) Foram igualmente reafirmadas as preocupações pela destruição do santuário bahá’i de Babol, e pela recusa das autoridades em autorizarem que os restos mortais que nele se encontram voltem a ser condignamente enterrados».

Já o ano passado, o caso que teria maior visibilidade foi o que envolveu cerca de mil estudantes bahá'is impossibilitados de aceder ao ensino superior por discriminação religiosa. Desde os anos 90, em grande parte devido a pressões internacionais, era-lhes permitido frequentar escolas primárias e secundárias. Mas os cursos superiores continuavam-lhes vetados por ser obrigatório declarar a confissão religiosa e a fé bahá'i não constar na lista das religiões admitidas. Em 2004, as autoridades retiraram essa menção, introduzindo, contudo, um exame em que era solicitado aos estudantes um trabalho sobre um de quatro temas: judaísmo, cristianismo, zoroastrismo e islamismo. A maioria dos candidatos bahá'i optou pelo islamismo (a religião do país), e quando os resultados foram divulgados viu que havia sido acrescentada a palavra Islão no espaço reservado à religião do aluno. Muitos protestos e petições depois, dos 800 admitidos inicialmente apenas 10 constaram das listas finais. Toda esta trapaça discriminatória foi repetida no ano lectivo seguinte (o actual), resultando, na prática, numa recusa do direito à educação dos jovens bahá’i iranianos.

Deste e de outros assuntos falaríamos com Mário Mota Marques, director de Assuntos Externos da Comunidade Bahá'i de Portugal. Oriundo de uma família agnóstica, entrou para a comunidade ainda adolescente, há 43 anos. Dificilmente disfarça algum orgulho por pertencer à mais jovem religião reconhecida, cujo número de membros portugueses avalia em nove mil e cuja origem recua a 1926. No mundo existirão mais de quatro milhões espalhados por 166 países. Sem clero, organizam-se segundo uma estrutura piramidal, com conselhos locais, nacionais e internacional, sempre constituídos por nove membros - um número considerado sagrado: a fé bahá’i é a nona na linha das revelações e Bahá'u'lláh é o nono profeta. Será o último? Mário Mota Marques confessa que haverá alguma tentação responder que sim, preferindo concluir que esse é um assunto em aberto.

Hoje é dia de jejum, o que se repete anualmente entre 2 e 20-3 (cada mês bahá’i tem 19 dias e um ano 19 meses), com abstinência de alimentos e bebidas do nascer ao pôr-do-sol. O objectivo é contrariar o ego, enfatizando a meditação e a prece. A privação não atrapalha a memória do meu interlocutor, que de Teerão salta para o Portugal de antes do 25 de Abril, quando as suas visitas à António Maria Cardoso não eram assim tão raras; o mesmo para as visitas à casa dos bahá'is, onde costumava limitar-se à apreensão de livros e documentos. Mário Soares e Vasco da Gama Fernandes chegaram a ser advogados da comunidade. E em defesa dela, embora não jurídica, também saiu Eça de Queirós em Correspondência de Fradique Mendes. Já à porta da sede lisboeta, na Avenida Ventura Terra (uma moradia de espaço lotado, dizem-nos), Mário Mota Marques recorda o dia em que a polícia política lá apareceu apreendendo as folhas de papel-cenário que as crianças da comunidade usavam para dar livre curso ao seu fulgor artístico: «Não acreditaram. Julgaram que os gatafunhos eram planos criptados para assaltar quarteis».

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